
Quando nos esquecemos de ser Bruxo

Tem dias em que a rotina nos engole. Corremos, aceleramos, e parece que a única parada possível não é nem o descanso, mas a própria exaustão. E às vezes a vida fica parecendo ser a antítese daquilo que, de fato, supõe a vida na Bruxaria: a natureza. Mas a ironia disso é: como chegamos a esse tipo de percepção tão unilateral sobre a vida com tanto conhecimento mágico que julgamos ter?
A resposta é: nós não fomos treinados para nos olhar como potência, mas sempre como falta. Essa é a história da subjetividade ocidental. O que estamos fazendo, quando deliberadamente decidimos praticar a Arte, é, na verdade, um esforço consciente, persistente e resistente diante de eras de patriarcado sobre nosso modo de operar. Um modo que vai sempre procurar nos colocar como vítimas, culpados de algum pecado original que precisamos expiar.
Uma das primeiras coisas que se aprende e se lê nos livros de Bruxaria são as muitas possíveis etimologias da palavra _Wicca/Wicce/witch_. Entre as muitas origens possíveis, algumas trazem a ideia de que bruxa ou bruxo são aqueles capazes de moldar a própria realidade.
Na teoria, isso é muito bonito. E, de fato, é um paradigma bastante coerente. Mas, na prática, isso parece muito distante quando se confronta com o real do que nos foi ensinado a ser: submissos. Que devemos aceitar as coisas tal como são, pois assim alguém quis — geralmente uma entidade superior a nós. E isso invariavelmente nos faz esquecer que somos Bruxas e Bruxos. Portanto, em algum nível, moldadores de nossa própria realidade, nem que seja no nível interno.
No caminho de desenvolvimento pela Arte, aprendemos a desenvolver habilidades que ampliam o uso dos cinco sentidos habituais. E, através de técnicas somadas à relação com a natureza manifesta e seus ciclos, sabemos como empregar tais meios para alterar. Na maioria das vezes, não os fatos em si, mas como podemos percebê-los de outro jeito. E, na melhor das hipóteses, como podemos ao menos nos blindar deles.
Já observei, tanto em mim quanto em outros bruxos e bruxas experientes, queixas excessivas sobre exaustão, crises e situações em que qualquer outro bruxo, olhando de fora, diria: "ei, você sabe como resolver isso!". Sim, sabemos! Com isso não estou dizendo que tudo se resolve com magia ou numa ilusão mágica ao estilo de Sabrina Spellman, longe disso. Mas estou dizendo que, muitas vezes, esquecemos, por descuido, de sermos bruxos.
Mas existem muitos exemplos nos quais nos tornamos "vítimas" das circunstâncias quando nos esquecemos de sermos bruxos.
Quantas vezes nossa intuição já nos alertou sobre determinada situação ou pessoa, mas insistimos em negar o que está sendo ouvido? Ou ainda: esquecemos de consultar oráculos para confirmar ou descartar hipóteses sobre os outros?
Resultado: somos enganados, trapaceados, feitos de tolos ou até roubados.
Quantas vezes temos a consciência clara de que determinados lugares e situações vampirizam a nossa energia, mas insistimos em não cuidar de nossas proteções, limpezas e autocuidados espirituais necessários?
Resultado: nos sentimos física e espiritualmente apáticos e desconectados de nós mesmos.
Quantas vezes abrimos mão de disciplinas, exercícios e hábitos mágicos saudáveis porque decidimos colocar outras "prioridades" na frente?
Resultado: isso acaba enfraquecendo nosso poder pessoal.
Quantas vezes deixamos de estudar, aprimorar nosso conhecimento e ampliar saberes já adquiridos, porém não reciclados, por julgar que já sabemos o bastante?
Resultado: perdemos conteúdos preciosos de autoconhecimento que nos livrariam de situações desnecessárias.
Quantas vezes deixamos de respeitar ciclos sazonais e lunares importantes por insistirmos na unilateralidade de atitudes?
Resultado: gastamos uma energia pessoal desnecessária por nadar contra a maré.
Quantas vezes deixamos de realizar registros de práticas e sonhos, anotações em nossos diários mágicos?
Resultado: isso nos impossibilita uma reflexão mais profunda sobre determinada vivência, justamente por perdermos a percepção exata sobre algo que depois vamos custar a aprender por não ter prestado atenção.
Pois é, muitas e muitas vezes. Mas isso não precisa se tornar uma realidade. Você pode se lembrar de ser um bruxo sem que isso se torne também uma obsessão internalizada. Até porque ser bruxa e bruxo é algo que deve ser vivido na naturalidade de quem se é. No entanto, não confunda isso com abrir mão de aspectos importantes desses conhecimentos e práticas.
Embora hoje a Bruxaria tenha assumido um aspecto bastante "profissional", isso não quer dizer sobre, ou exclusivamente, um lugar de atuação. Mas sim de ofício, no qual fazer uso consciente dele para si mesmo é tão importante — ou até mais — que para os outros. E isso não acontece somente neste âmbito. Parece que até médicos esquecem de ser médicos para si, psicólogos esquecem de ser psicólogos para si, professores esquecem de ser professores para si mesmos, por exemplo.
Penso que é nos lembrar e colocar na ordem do dia: primeiro, preciso ser bruxo para mim antes de ser ou parecer para os outros. Segundo, não fazer uso do conhecimento que tenho é padecer desnecessariamente e até um certo negacionismo inconsciente perante a ele.
por Sérgio Lourenço.
