A Wicca é só isso mesmo? Sobre a profundidade daquilo que chamamos de básico

20/10/2026

Sabás, Esbás, círculo mágico, a Deusa, o Deus, a Roda do Ano. Será que são sempre os mesmos temas que vamos encontrar nos livros sobre a religião Wicca? E será, então, que a Wicca é só isso mesmo?

Essa provocação também é uma indagação que muitos de nós fazemos ao longo da própria jornada, sobretudo quando começamos a nos aprofundar. Buscamos novas leituras, acompanhamos publicações, exploramos outros autores e, em algum momento, parece que estamos encontrando continuamente os mesmos assuntos.

É uma pergunta interessante e importante de fazer a si mesmo. Mas ela também pode mascarar certa arrogância, disfarçada de conhecimento sobre aquilo que acreditamos já compreender.

Não digo isso como alguém que nunca fez essa pergunta. Pelo contrário: eu também já me deparei com esse dilema. Justamente por isso, acredito que confrontá-lo com pensamento crítico pode nos ajudar a compreender melhor a Wicca e a própria busca espiritual, aprofundando aquilo que talvez estejamos chamando, apressadamente, de simples.

A imagem da religião e a experiência de vivê-la

Quando olhamos para algumas representações da Wicca, sobretudo nas redes sociais, podemos ter a impressão de uma religião infantilizada. Mas a maneira como determinadas pessoas a apresentam não significa que a religião se resuma àquela representação.

A Wicca tem, sim, sua simplicidade. Uma simplicidade que pode carregar profundidade e que se revela conforme aprofundamos o próprio caminho. O problema aparece quando confundimos uma apresentação superficial com a totalidade da experiência religiosa.

Muitas vezes, alguém lê um, dois ou três livros e acredita já ter elementos suficientes para concluir o que é a Wicca e quais são seus limites. Mas será que houve, de fato, uma apropriação dos fundamentos? Será que aquilo que parece tão conhecido chegou a ser compreendido e vivenciado?

Precisamos considerar, ainda, que a Wicca não está somente nos livros. Ela também está naquilo que é praticado, estudado, vivido e ampliado dentro de suas tradições.

As tradições são espaços de aprofundamento e de desenvolvimento de práticas e experiências que nem sempre estarão disponíveis nas publicações, sobretudo pelo caráter mistérico que carregam. Assim, aquilo que encontramos na literatura não esgota tudo o que existe na religião.

Ainda assim, mesmo quando pensamos na Wicca de maneira mais ampla, a partir dos temas comuns e acessíveis nos livros, a pergunta permanece: por que encontramos tantas vezes os mesmos assuntos?

Sim, esses temas fazem parte da Wicca

Minha resposta pode parecer simples, mas não pretende ser reducionista: sim, a Wicca é isso também. Os Sabás, os Esbás, o culto à Deusa e ao Deus, o círculo mágico e a busca por uma transformação interior em relação com a natureza manifesta fazem parte daquilo que estamos chamando de Wicca.

Mas que religião não revisita continuamente seus próprios conteúdos?

Parece desonesto cobrar da Wicca uma novidade permanente ou justificar seu esvaziamento com a afirmação de que ela "é sempre a mesma coisa", como se outros caminhos religiosos, esotéricos e ocultistas não retomassem seus temas fundamentais.

Quando olhamos para uma religião hegemônica, como o catolicismo, também encontramos conteúdos que retornam continuamente. Isso não impede que reconheçamos a existência de estudo, preparo, conhecimento e profundidade dentro dela. Por que seria diferente com a Wicca?

É importante considerar essa questão antes de formular uma crítica infundada. Reconhecer a simplicidade de uma religião não significa afirmar que ela seja desprovida de complexidade.

A repetição de um tema, por si só, não nos diz o quanto ele pode ser aprofundado. Também não nos diz o quanto nós mesmos já conseguimos compreendê-lo.

A simplicidade pode ser resultado de um longo trabalho

Sintetizar uma ideia, um conceito ou um fundamento exige reunir elementos, compreender relações e lidar com complexidades até conseguir expressá-los com clareza.

Digo isso também a partir da minha experiência como autor. Quando conseguimos apresentar um conhecimento de maneira simples, isso não significa que sua elaboração tenha sido simples. Muitas vezes, aquela síntese exigiu maturação, diálogo, desconstrução e um trabalho contínuo de lapidação.

Foi preciso reunir elementos diversos, por vezes até opostos, para chegar a uma formulação que pudesse ser compartilhada.

Por isso, quando encontramos livros de Wicca abordando temas semelhantes, podemos estar diante de diferentes trabalhos de síntese. Cada autor apresenta aquilo que conseguiu organizar a partir de seus estudos, de sua experiência e das transformações que atravessaram sua jornada.

Esse processo ganha ainda outra dimensão quando lembramos que a Wicca não é uma religião dominante. Aproximar-se dela pode exigir rever conceitos herdados, questionar referências e construir outras maneiras de perceber o mundo.

Além de sintetizar um tema, um autor também apresenta uma perspectiva sobre ele. É por isso que vale a pena ler diferentes autores, mesmo quando os assuntos parecem repetidos. Nesse encontro entre perspectivas, podemos construir nossa própria compreensão, apoiada em uma base crítica, séria e fundamentada.

Por que tratamos o básico com menosprezo?

Outra questão importante é a maneira como usamos a palavra "básico".

"Isso é muito básico." "Esse livro só fala do básico." "Eu quero alguma coisa mais avançada."

Muitas vezes, essas afirmações carregam um menosprezo pela própria ideia de base, como se ela fosse algo que precisássemos abandonar rapidamente para demonstrar conhecimento.

Mas só conseguimos avançar em qualquer área porque existe uma base que sustenta esse movimento. Isso vale para o conhecimento religioso, mágico, filosófico e científico.

Você consegue ler porque construiu uma base para a leitura. Consegue realizar uma operação matemática porque houve um aprendizado anterior. O aprofundamento depende dos fundamentos que tornaram possível chegar até ele.

Na jornada espiritual, acontece o mesmo.

Quando nos colocamos no lugar de quem acredita saber mais, de quem considera tudo simples demais, podemos entrar em um caminho de autoengano. Podemos deixar de perceber que nem sequer reconhecemos com clareza as bases daquilo que afirmamos conhecer.

Pensando simbolicamente nos elementos, podemos relacionar essa base à Terra. Sem um fundamento, o que conseguimos construir? E por quanto tempo essa construção consegue se sustentar?

Se você encara sua vivência religiosa como uma busca espiritual, precisa oferecer a ela uma base sólida. Isso envolve ler e reler, voltar a temas conhecidos, reorganizar perspectivas e tentar compreender melhor aquilo que já parecia compreendido.

É também nesse retorno que você começa a organizar e sintetizar o que, antes, talvez soubesse apenas reconhecer nas palavras de outras pessoas.

Você consegue explicar aquilo que chama de básico?

Antes de nomear os fundamentos da Wicca como simples ou básicos, proponho um exercício: você consegue explicá-los a partir de si mesmo?

Consegue falar sobre os conceitos presentes em sua prática com suas próprias palavras, a partir daquilo que estudou e vivenciou? Consegue explicar os Sabás, os Esbás e os fundamentos de sua experiência religiosa sem precisar consultar previamente uma definição?

Não se trata apenas de repetir uma descrição. Trata-se de perceber se você conseguiu reunir esses conhecimentos e elaborar uma compreensão sobre eles.

Também precisamos considerar que cada tradição pode apresentar especificidades em relação a esses temas. Ainda assim, mesmo pensando nos aspectos mais gerais da religião, você consegue organizar e expressar aquilo que compreendeu?

Essa pergunta pode ajudar a perceber a diferença entre estar familiarizado com um assunto e ter se apropriado dele.

Se você já consegue fazer esse movimento, pode ser o momento de ampliar conceitos, aprofundar determinadas práticas e buscar conhecimentos mais específicos. Há caminhos a explorar e experiências a desenvolver.

Mesmo assim, os fundamentos continuarão merecendo ser revisitados. Novas experiências podem modificar a maneira como você compreende algo que já conhecia, e uma leitura antiga pode ganhar outro sentido depois de alguns anos de prática.

Então, quando você olha para os temas que parecem se repetir na Wicca, o que encontra nessa repetição? E o quanto já se aprofundou neles antes de decidir que precisa buscar alguma coisa mais avançada?

por Sérgio Lourenço

Sérgio Lourenço, Sacerdote Wiccano da Tradição de Taliesin.
Sérgio Lourenço, Sacerdote Wiccano da Tradição de Taliesin.
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